Em 31 de julho de 2001, o novelista canadense Howard Engel levantou-se da cama, fez o café da manhã e recolheu o jornal da porta. Um instante depois, contemplou a capa do Toronto Globe and Mail e teve a sensação de estar lendo um diário no idioma chinês, uma língua que jamais tinha visto e não reconhecia. Ainda que demorou em compreendê-lo, Engel tinha perdido subitamente sua capacidade para reconhecer as letras.
Este quadro, conhecido como alexia ou cegueira às palavras, se caracteriza pela perda total da capacidade de reconhecer visualmente o que está escrito, e pode ser causado por um AVC - Acidente vascular cerebral (acrônimo: AVC), ou acidente vascular encefálico (acrônimo: AVE), vulgarmente chamado de derrame cerebral, é caracterizado pela perda rápida de função neurológica, decorrente do entupimento ou rompimento de vasos sanguíneos cerebrais. É uma doença de início súbito, que pode ocorrer por dois motivos: isquemia ou hemorragia.
Uma vez superado o ataque, o dano cerebral permaneceu e Engel pensou que sua vida como escritor de novelas policiais tinha terminado para sempre.
No entanto, e para sua própria surpresa, Engel não demorou em descobrir que tinha perdido sua faculdade para ler, mas mantinha a capacidade para escrever. Descrevia com a mão o traçado de uma letra sobre um papel, por exemplo, era capaz de entender seu significado e recuperar o sentido do que havia escrito.
Tal e como relata o neurologista Oliver Sacks em seu livro (The Mind's Eye), Engel havia deixado de ver as palavras com seus olhos porque sofreu danos em seu córtex visual. Mas podia 'ver' as letras quando ativava a parte motora de seu cérebro, a que recorda como as letras são escritas, e por isso começou por traçar as letras em papéis, ou no ar, para ir recuperando lentamente o sentido das palavras.
Após aquele episódio, Engel foi capaz de escrever um par de livros, em um dos quais descreve as peripécias de um personagem que passa por sua mesma situação (The Man Who Couldn't Read). O mais surpreendente é que ele conseguiu recuperar o dom da leitura de uma forma bastante engenhosa: traça a forma das letras com sua língua sobre o paladar de maneira que seu cérebro possa entendê-las.
Seu caso é um exemplo a mais da versatilidade do nosso cérebro, cujos lóbulos são capazes de assumir as funções de zonas que sofrera danos irreparáveis mediante uma fascinante reconversão.
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