O cinema ainda guarda a capacidade de emocionar as plateias. O problema é o tipo de emoção que os filmes despertam, algumas bem mais sutis do que outras. Caso de “Melancolia”, o filme mais triste dos últimos tempos que, misteriosamente, foi maculado no seu lançamento em Cannes pelo próprio diretor Lars Von Trier. O blues, a voz de Billie Holiday e os poemas de Byron induzem a esse sentimento cujo nome está no título do filme, intangível porque não se explica e incurável porque não tem origem conhecida.
O impacto, literalmente falando, já se antecipa logo na seqüência de abertura, com impressionantes painéis pictóricos fotografados em câmara lenta e os plangentes acordes do prelúdio de Wagner em “Tristão e Isolda”. Este é praticamente o único tema musical do filme a se repetir a cada aproximação do final anunciado, fazendo crescer a aflição do público e de alguns personagens.
Há um parentesco entre este e outro filme dinamarquês do conterrâneo fundador do movimento do Dogma 95, Thomas Vinterberg, que é “Festa de Família” (1998). Porque tudo se passa durante a festa de casamento da protagonista interpretada por Kirsten Dunst, com justiça premiada em Cannes como melhor atriz. Aliás, é a segunda artista a quem o diretor abre o caminho para o mesmo prêmio, em dois anos. A outra é Charlotte Gainsbourg, que trabalhou em “Anticristo” (2009) e que também está no elenco de “Melancolia”, junto com intérpretes de primeira linha, como Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling, John Hurt e Stellan Skarsgard.
Todos estão reunidos para festejar o casamento que se inicia alegremente, mas aos poucos a noiva é atacada por aquele mal de que falamos e passa a arruinar a festa passo a passo, até que o enlace é cancelado. Tudo isso é mostrado de modo ágil, com a câmara na mão, menos nos momentos em que a personagem se relaciona com as estrelas e nota o brilho de uma delas em especial. Trata-se de um planeta que vem se aproximando da Terra e que, segundo os astrônomos, deverá passar ao largo, ainda que na internet as postagens mais numerosas anunciem o fim do mundo.
Ao público só resta compartilhar com eles essa dúvida e as maneiras como cada um reage a ela.
É de fato uma narrativa simples, mas que possibilita diversas leituras. Alguns mencionam uma reinterpretação do mito medieval de Tristão e Isolda, em que o amor se realiza só (ou até) na morte. Outros falam em metáfora das experiências de perda que, por todo o mundo, vêm superando as de crescimento e conquista. E há os que identificam aí aquela mesma premonição de abismo, aquele sabor de amargura sugerido pela certeza de que tudo está sempre por um fio. Enfim, um filme para se refletir.
Filmes, em 15/08/2011 às 16:23 por Juliane
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